Por Afonso Celso Candeira Valois
Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Doutor
Em nichos ecológicos do Maranhão é muito grande a ocorrência do açaí ou juçara, planta de enorme valor alimentar e nutricional, de grande importância devido aos seus produtos comporem o seleto grupos dos alimentos funcionais, isto é, aqueles que fazem bem à saúde humana.
Pertencente à família botânica Arecaceae, nome científico Euterpe oleracea Mart., essa generosa planta é conhecida pelos seguintes nomes comuns: açaí, açaí-do-pará, açaí do baixo amazonas e juçara no Maranhão. O gênero Euterpe congrega cerca de 28 espécies, que estão distribuídas desde as Antilhas e América Central até às regiões florestais amazônicas do Peru.
No Brasil três são as espécies mais importantes: E. oleracea Mart., que ocorre principalmente em toda a extensão do estuário amazônico, do Maranhão ao Amapá e no Pará, acompanhando o vale do Baixo Amazonas, estendendo-se às Guianas, Venezuela e Trinidad; E.precatoria Mart., nas regiões central e ocidental da Amazônia, indo até aos contrafortes dos Andes; E. edulis, abundante nas florestas da Mata Atlântica e do centro-sul do País, atualmente seriamente ameaçada pelo desordenado processo de exploração do palmito. A espécie E. precatoria é mais vigorosa e tardia na produção de frutos, porém apresenta maior concentração de antocianinas.
O açaizeiro é uma planta tipicamente tropical, encontrada em estado silvestre e fazendo parte da vegetação florística das matas de terra firme, várzea e igapó, sendo os seus frutos largamente procurados para a produção do tradicional e apreciado “vinho do açaí”, rico em antocianinas (substâncias antioxidantes), ferro, cálcio e fósforo, utilizado na alimentação humana e fabricação de sucos, picolés, sorvetes e outros produtos deliciosos. Na região do Médio Solimões, no estado do Amazonas, existe a ocorrência natural do “açaí branco”, que produz um vinho esverdeado, também muito apreciado pelos povos nativos.
Uma das características da espécie E. oleracea é o crescimento em touceiras (reboladas), resultante das brotações. O número de pés e brotações por touceira varia em função das condições ambientais, podendo chegar a 25 em uma rebolada, incluindo as brotações, embora o número ideal seja de 4 a 6 para uma boa produção de frutos. O estipe é delgado, às vezes ligeiramente curvo, atingindo em média 15-20m de altura, sustentando no ápice um capitel de folhas pinadas com os segmentos pêndulos, o que lhe confere um porte delgado e elegante. Por esta razão geralmente é encontrado em praças e jardins, como planta ornamental. O número de cachos por pé varia em torno de 8, sendo mais comum de 3-4, porém em ambos os casos sempre em diferentes estádios de desenvolvimento, desde inflorescência encerrada em espata até aos cachos com frutos maduros.
O fruto é uma baga arredondada de cor atroviolácea quando madura, de 12-15 mm de diâmetro. A frutificação pode ocorrer durante o ano inteiro, sendo a estação menos chuvosa o período de maior abundância e também de frutos que fornecem o vinho de melhor sabor.
A colheita dos cachos é uma tarefa árdua, arriscada e aventureira, realizada por pessoas habilitadas em escalar os açaizeiros. Quando lá no alto passam de um pé para outro, colhendo assim, todos os cachos maduros da touceira.
O açaizeiro é uma planta de grande importância sócio-econômica devido ao seu enorme potencial e real aproveitamento integral da matéria-prima. O principal produto é o vinho extraído da polpa dos frutos, enquanto que as sementes são utilizadas para artesanato, adubo orgânico, alimentação animal e produção de mudas para plantio. A planta fornece ainda um ótimo palmito, enquanto que suas folhas são muito utilizadas para a cobertura de casas e o estipe pode ser usado na indústria de celulose e papel.
Em face da característica altamente perecível do vinho, a Embrapa Amazônia Oriental (Belém- Pará), desenvolveu uma tecnologia para a obtenção do açaí desidratado (em pó), que em linhas gerais compreende as seguintes etapas: recepção dos frutos, lavagem, maceração dos frutos, despolpamento, centrifugação, secagem, envasamento, embalagem e estocagem, todas com extremo cuidado no uso de boas práticas de fabricação (BPF), para a obtenção do produto livre de perigos físicos, químicos e biológicos.
Um outro método bastante utilizado pelas indústrias alimentícias é submeter o suco concentrado à temperatura de –40ºC, preservando assim grande parte das suas propriedades organolépticas.
Considerando a atuação do Convênio da Embrapa com o Governo do Maranhão e outras instituições, em 2005 e 2006 foram desenvolvidos esforços e ações no município de Luís Domingues e região, no sentido de levar tecnologias apropriadas para o cultivo e exploração racional do açaí.
Assim, em articulação com a Associação dos Trabalhadores com Açaí de Luís Domingues (ATALD), SEAGRO/CAF-Zé Doca, SEBRAE/Santa Inês, Prefeitura Municipal, Banco do Nordeste, InaGro e Embrapa Amazônia Oriental (Belém-PA), foram oferecidos cursos de capacitação dos produtores, dias-de-campo, reuniões técnicas e implantação de unidades de validação tecnológica (UVT).
O grande destaque nessa feliz ação do Convênio foi a introdução da cultivar BRS PARÁ, selecionada pela Embrapa Amazônia Oriental, cuja planta é precoce (começa a frutificar aos 3 anos de idade), a primeira frutificação ocorre à altura de 1,12m do nível do solo (facilidade de colheita e maior eficiência operacional), mais produtiva em relação à média dos outros açaizeiros nativos (estimativa de 10t/ha/ano após 8 anos do plantio) e maior rendimento de polpa (entre 15% e 25%, garantindo maior quantidade de vinho por fruto), com boa adaptação regional (plasticidade fenotípica). Grande fulcro para o sucesso do agronegócio rentável do açaí ou juçara!
A grande visão de futuro fica por conta da introdução do açaí na merenda escolar em Luís Domingues e em outros municípios produtores da região (Carutapera, Godofredo Viana, Nunes Freire, Amapá do Maranhão e Cândido Mendes), onde o açaí em pó será de enorme valia. Com isso será assegurada uma alimentação complementar mais sadia das crianças e jovens, com a aplicação de um produto regional e funcional, para ficarem livres de anemias por exemplo, e poderem se desenvolver adequadamente.
Atividade semelhante foi desenvolvida pelo Convênio acima referido no município de Barreirinhas (MA), em articulação com a Secretaria Municipal de Agricultura.
Características físico-químicas do açaí: a parte comestível representa 17% do fruto e a semente (caroço) 83%. A composição química varia de acordo com as características físicas do açaí. Para cada 100 gramas de polpa essa composição é a seguinte: umidade 59,73%; protídios 2,52%; lipídios 7%; glicídios 25,52%; cinza 1,23%, cálcio 0,167%; fósforo 0,051% e ferro 0,004%. Para o vinho, a composição química é a seguinte: umidade 87%, protídios 2,37%; lipídios 5,96%; cinza 0,47%, cálcio 0,05%; fósforo 0,033% e ferro 0,0009%. A análise química do pó de açaí mostra os seguintes resultados a cada 100 gramas: voláteis a 105ºC 7,45%; resíduo mineral fixo 4,50%; extrato etéreo 45,00%; proteína bruta 9,4%; fibra bruta 3,20%; cálcio 0,72%; fósforo 0,30%; potássio 0,89% e magnésio 0,29%. O valor energético de 100 gramas de açaí é de 80 calorias.
O material corante existente no fruto, responsável pela coloração roxa que lhe é peculiar, pertence ao grupo das antocianinas, que são pigmentos que possuem enorme poder antioxidante que ajudam a impedir reações que levam ao envelhecimento precoce das células e que auxiliam no controle do colesterol. Além disso, as antocianinas possuem propriedades antiinflamatórias semelhantes às da aspirina, que combatem a dor.
“Para os maranhenses, paraenses e amazonenses vale a pena lembrar que juçara e açaí são a mesma coisa, só diferenciando no processo de preparo do vinho, que no Pará o produto fica muito mais denso”.